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O estereotipado papel do idoso

Esse texto tem como pressuposto uma breve reflexão de parte da leitura do livro A velhice, que tem como autora Simone de Beauvoir e do estágio de observação realizado em um abrigo de idosos. Através das explanações da autora é possível refletir aspectos muito mais profundos e compreender melhor como se dá o processo de envelhecimento no sistema socioeconômico em que se vive. A autora faz uma análise crítica do sistema econômico vigente na época em que escrevera a obra relacionando todo esse contexto com a velhice. Inclusive, ainda que a velhice seja uma realidade vivida de maneira subjetiva e tenha grande influência do contexto social, é possível compreender com clareza o que Simone estava trazendo à tona, visto que na atualidade isso aparece de forma mais esclarecedora quando é feita uma reflexão a respeito do sistema econômico em que atualmente se é vivido. Os interesses da classe que demanda maior poder é desfazer a solidariedade entre os trabalhadores e os improdutivos, ou seja, esses últimos denominam os idosos, que estão numa fase que já não constituem qualquer força econômica e não são portanto, lucrativos. Assim sendo, esse modelo que visa em primeiro lugar o poder econômico, contribui para dificultar que essas pessoas tenham meios de fazer valer seus direitos. A partir disso, já é possível destacar um impasse presente nesse processo de envelhecimento.

Ainda, a autora afirma que os mitos ditados pelo pensamento burguês mostram o velho como algo à parte da sociedade, ou seja, como um outro. Inclusive, baseando-se na observação de Proust, cita: ''É com adolescentes que duram um número bastante grande de anos que a vida faz velhos'' e que ''conservam as qualidades e os defeitos do homem que continuam a ser''. No entanto, como interpretado pela autora, é isso que está sendo ignorado, pois se os velhos manifestam as mesmas vontades, os mesmos sentimentos ou qualquer outra coisa reivindicada pelos jovens, há uma escandalização. É socialmente exigida uma determinada imagem do velho, seja dando o exemplo de todas as virtudes, seja exigindo-lhes uma certa serenidade e, ainda, o extremo oposto disso também é uma imagem distorcida e preconceituosa tida como a imagem do velho que caduca e delira. Conforme cita Beavouir: "De qualquer maneira, por sua virtude ou por sua abjeção, os velhos situam-se fora da humanidade. Pode-se portanto, sem escrúpulo, recusar-lhe o mínimo julgado necessário para levar uma vida de homem.'' Segundo Santos (1990), no modo de produção capitalista, onde há grande valorização da produção e se aliena o trabalhador do processo de produção, a aposentadoria é comumente vivenciada como a perda do próprio sentido da vida. Ao se valorizar apenas aqueles que produzem, deprecia-se o sujeito aposentado, ou seja, o idoso.

Uma outra questão que também chama a atenção diante dessa temática, é a da imagem do velho nas diferentes sociedades, ou seja, a forma como essa fase do desenvolvimento humano é visualizada nas diversas culturas do mundo. É sabido que na sociedade ocidental o valor que se é dado para a beleza estética é preponderante e assim, faz-se da juventude uma hegemonia. Ao passo que em determinadas culturas, como por exemplo, na cultura chinesa, o envelhecimento é relacionado à maturidade e à sabedoria e os idosos são muito valorizados. Logo, o modo como será encarado o envelhecer e o impacto que esse processo transitório provoca varia de acordo com o contexto cultural em que cada indivíduo está inserido. Diante de uma sociedade que reproduz estereótipos acerca da velhice e elabora verdades a partir de sua construção histórica, social e cultural, Picirilli (p. 230) relembra o conceito de efeito de verdade, elaborado por Focault, que pode esclarecer essa formulação de ideias: Os efeitos de verdade se constituem como a naturalização de uma forma de pensamento que é tomado como verdadeiro, sem que ele reflita sobre a maneira como este pensamento é construído. Com o intuito de encerrar a explanação mas não as reflexões fica a seguinte consideração: ''a velhice é amortalhada num silêncio planejado pois essa denuncia o fracasso de toda a civilização'' (BEAUVOIR, 1990, P. 664).


Nickeli Chaves

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