Paciência

12/8/2020

     Está uma linda tarde ensolarada, clima ameno, resolvo aproveitar o instante para não fazer nada, apenas, apreciar o momento e encantar-me com a luz, o calor e os sons que vem da rua. Um carro que passa ao longe, latidos de cachorro, cantar dos passarinhos e vozes maternas atrás de seus filhos na pracinha. Acho que há algo que não combina. Mães atrás de seus filhos? Não estamos de quarentena, bandeira vermelha e tudo mais?


    Na frente da minha casa uma mulher corre atrás de seu pequeno pedindo para ele não virar mais o carrinho. Espio pela janela. É verdade. Há pessoas ali, sem máscaras. Brinquedos em contato com o chão do passeio público. Gente, estamos no auge da pandemia. Resolvo, então, ler o jornal do “findi” e na capa mais um susto. Nosso querido presidente está na primeira página, com a máscara facial no queixo, segurando uma criança com a face desprotegida, com várias pessoas acotovelando-se ao seu redor, juntas, aglomeradas, encostadas e faces expostas. Respiro fundo.


     Começo, então, a folhear o jornal pelo fim. Estranho hábito adquirido pelo fato de a melhor ser crônica ser a última, desde os tempos do Carlos Nobre, e percebo que amanhã terá futebol. Salientam, os setoristas de esporte, que com todas as precauções. Psicanalistas e articuladores dão sua opinião.

 

     Confusas. Pois sim, ora por que não. O fato é simples: o futebol, sem público, que seja, está de volta e, com isto, uma estranha sensação de normalidade.


     Continuo e passo a ler as crônicas. Uma das minhas escritoras preferidas está falando sobre sair de casa, dar o fora, ir para o litoral, serra, pegar estrada e circular o vírus por aí? Leio de novo e percebo que é só um desejo, que se pudesse era o que ela faria, que passaria uma temporada em tal lugar e pede paciência, paciência, paciência. Assim mesmo: repetidas vezes. Sinto-me um pouco melhor.


    Estamos todos cansados. Eu sei. Afinal estamos confinados em nossos lares há cerca de quatro meses. A curva de ocupação das UTIs, que aprendi, no jornal terem sido criadas na década de cinquenta, está no auge. O Corona vírus está, literalmente, no ar. Não temos como saber quem o transporta. Tratamento profilático não tem nenhuma comprovação científica e as vacinas podem até chegar antes do previsto e, mesmo assim, a previsão de volta a uma possível normalidade ainda demorará pelo menos um ano.


     Paciência, paciência, paciência. É isto que nos resta. As armas que dispomos ainda são a proteção das vias aéreas superiores, ou seja, o uso de máscaras faciais, o distanciamento social e hábitos sociais de higiene. A vida não foi suspensa. Só temos que aprender novas regras de trabalhar, estudar, socializar. É um tempo diferente e que não está sendo desperdiçado pela maioria. Para muitos, o cuidado é com o excesso de tarefas a que se propõem. Acreditem, isto está tendo que ser muito trabalhado.


     Posso ter sido repetitiva, mas percebo ser necessário. Esta é a maneira que tenho, através das minhas percepções e da minha escrita, de ajudar. Também tenho que me apacientar. Sonho com roteiros de viagens, em abraçar pessoas, em ir a museus, cinema, teatro. Conhecer pessoalmente pessoas queridas que conheci virtualmente e abraçá-las muito. Com muitos músculos e afeto. Para isso, eu e vocês, que estão lendo estas linhas, teremos que cultivar a virtude da paciência.

Nádia Bandeira

A história de Memo - Resenha do filme “Ninguém sabe que estou aqui”

5/8/2020

    Este texto é feito de spoilers sendo que só os iniciados podem lê-lo.

   Ninguém sabe que estou aqui é um desses filmes que passam pelos nossos olhos no catálogo da Netflix sem que nos chame atenção. Seu cartaz mostrava um homem obeso de costas, ombros curvados, cabelos desgrenhados, olhando para o chão.  Nem o nome de Jorge Garcia, conhecido pelo grande público como o Hurley da aclamada série Lost (2004-2010) mobilizava. O banner mudou: mostra o close do rosto do ator com uma bela paisagem de fundo, mas a sensação de desconforto não muda. Em tempos de pandemia quem se dispõe a ver um filme chileno que se apresenta desta forma? Pois bem, essa obra do jovem diretor Gaspar Antillo –vencedor do prêmio de realizador estreante no Festival de Tribeca nos Estados Unidos—nos dá um show de delicadeza e beleza e merece ser vista.

   Jorge Garcia, filho de pai chileno e mãe cubana, vive Memo, um homem de poucas, raras palavras que vive com seu tio em uma ilha no sul chileno. Este momento inicial do filme merece um momento contemplativo para mergulhar nas belas paisagens da Patagônia. Memo não é belo. Usa sempre as mesmas roupas, a casa onde mora com seu tio Bráulio, embora belíssima por fora, é suja e desarrumada. Os dois trabalham com a carne, couro e lã de ovinos e tem seu próprio rebanho. Nesta região, a mais austral do mundo, não há energia elétrica ou internet em muitos lugares como a ilha onde vivem estes dois ermitões.

   Memo comunica-se com o espectador através de suas expressões faciais, movimentos de olhos, sobrancelhas, gestos ora contidos, ora explosivos. Sua imagem nos captura. Suas expressões nos inquietam.

  Imaginar Memo sentado à frente de um analista, com este silêncio, perturba. Silêncio que grita. E como num processo analítico, ele vai nos mostrando sua história. Ele gosta de dar escapadas ao vilarejo mais próximo onde captura roupas e objetos com que costura uma vasta capa brilhosa, espalhafatosa. Quando está só, Memo se embrenha pela floresta adentro com seus fones de ouvido. O que faz Memo nestes momentos? Por flash backs, ou associações livres, seu passado é nos revelado. Ele era um calouro mirim desses programas de talento. Sua voz era belíssima, mas sua imagem não era comercializável. Então entra um outro menino, Ângelo, e seu pai vende sua voz para que o menino belo se apresente. Dois meninos a mercê dos interesses de seus pais. Numa das apresentações de Ângelo, Memo se enfurece e parte para cima do outro menino. Foi a partir daí que Memo se calou. Se não podia cantar, para que falar? E assim passou a morar com seu tio Bráulio, ou melhor, seu pai o abandonou e o deixou com este tio.

   A conexão dos ermitões com o mundo externo é feita através de clientes que utilizam o trabalho artesanal que eles exercem no manejo da lã. Um desses dias aparece uma moça, trazendo lãs já que seu tio havia ficado doente. Nomes não chamam a atenção e confesso que não lembro o nome da personagem pois o que ficou gravado foi o seu olhar para o nosso grande homem calado. Após um desses encontros, a capa de Memo fica pronta e ele se embrenha na floresta, com seus inseparáveis fones de ouvido, veste o manto reluzente e canta. Dança. Brilha.

   Uma das sutilezas do diretor é a fotografia. Nos momentos em que Memo vive suas fantasias, representadas por detalhes de uma dança minimalista, um gesto mais rebuscado e no momento em que se põe a cantar, a tela enche-se de cores quentes. A felicidade tem cor e, para o diretor de fotografia, é o vermelho e suas tonalidades.

   Um acidente muda tudo. Tio Bráulio acaba se machucando no concerto do barco, o único meio de ligação com o continente e precisa se recuperar no vilarejo. O ermitão Memo parece não esboçar nenhuma reação. As visitas da moça passam a ser mais frequentes e, para que ela não vá embora, já que Memo havia se trancado dentro de casa, ele canta para ela. Desde momento em diante os dois tornam-se mais íntimos e as visitas mais frequentes. Memo diverte-se com a internet que a moça traz e aventura-se a cantar para aquela pequena câmera. O vídeo viraliza.

   Ressurge então a figura do pai que veio cobrar uma retratação do filho. A raiva de Memo surge em uma cena em que quase estrangula o próprio pai. Convencido pela amiga, Memo resolve fazer o que o pai pede: encontrar-se com Ângelo em um programa de TV. E surge belíssimo em um lindo terno de cor marsala. Neste encontro com o outro que roubara sua voz, uma revelação, este havia ficado preso a uma cadeira de rodas após a agressão do menino Memo. Vitimizou-se para continuar nos holofotes, mas não havia revelado que a voz não era sua. Durante o programa, ao ouvir a versão dos fatos por Ãngelo, Memo extravasa suas mágoas, não por gestos, mas pela fala e pelo canto.

   Muitas críticas foram feitas ao final do filme. Após uma revisão cuidadosa da história de Memo o desfecho não poderia ser diferente. Memo volta de certa forma a sua antiga vida com uma brecha para a entrada da moça sem nome.

   Um menino inicialmente abusado por um pai, que quando vê que o filho não lhe tinha mais serventia, o abandona. Uma vida de tristeza e melancolia. Um luto eterno pela perda da voz e de seus sonhos. Silêncio, mágoas, diques, defesas. Nada disso é transposto e transformado magicamente. É preciso paciência para quebrar todas estas barreiras e algumas nunca poderão ser transpassadas.

    O filme é uma ode à frustração, a angústia e a melancolia.

   Termino com os versos da canção original do filme composta por Carlos Cabezas em inglês:

“Nobody knows I’m here

Yeah, yeah, yeah

Nobody talks tome and

No one can set me free

Nobody knows I’m here

Yeah, yeah, yeah

Somedays the stars over me

Will fill what I need to feel”.

Nádia Bandeira

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