Por que a Psicanálise nos dias de hoje?

8/7/2020

     Sigmund Freud, com a criação Psicanálise, enfrentou duras críticas de seus pares e da ciência da época. Hoje em dia, com os avançados estudos do cérebro, a Psicanálise, muitas vezes, segue sendo desqualificada e até mesmo atacada. Entretanto, a partir da clínica e da pesquisa psicanalíticas, a importância e a atualidade dessa disciplina emergem e se renovam a cada dia.


     No campo das ciências cognitivas e biológicas, constata-se, nas últimas décadas, um grande avanço nas neurociências, que, por um lado, busca o progresso no tratamento das doenças neurológicas, como por exemplo, Parkinson e Alzheimer. Nesse sentido, é inquestionável a relevância e os benefícios dos avanços advindos das pesquisas nesse campo do conhecimento. Por outro lado, observa-se uma ampla e difundida utilização desse conhecimento com o intuito de tornar mais eficiente a “maquinaria cerebral” e aumentar as capacidades de decisão e ação, almejando, assim, construir uma “biologia do espírito, uma neurobiologia da personalidade, dito de outro modo, uma biologia do indivíduo” (Ehrenberg, 2009, p. 189). Nesse último modelo, prevalece uma lógica reducionista do sujeito, em que a complexidade dos processos psíquicos se resume a explicações biológicas e de base neuroquímica.


     Nessa perspectiva biologizante, o sofrimento humano é compreendido meramente como uma alteração na atividade cerebral; logo, a intervenção terapêutica consiste em reestabelecer o equilíbrio neuroquímico por meio da prescrição ostensiva de medicamentos.


    Aliado a isso, outro relevante aspecto a ser considerado na cultura ocidental contemporânea é o imperativo de um ideal de felicidade e bem-estar, em que tristeza e sofrimento não são tolerados. Nessa direção, Kehl (2009) afirma que a tristeza é vista como uma deformidade, defeito moral, cuja redução química é confiada ao médico ou ao psi. (...) Aos que sofreram o abalo de uma morte importante, de uma doença, de um acidente grave, a medicalização da tristeza ou do luto rouba do sujeito o tempo necessário para superar o abalo e construir novas referências, e até mesmo outras normas de vida (p. 31).


     O discurso biomédico vigente coloca como única e eficaz alternativa ao sofrimento humano o uso de fármacos, produzindo, assim, uma medicalização maciça da vida. O risco desse ato indiscriminado recai sobre o silenciamento e até mesmo o apagamento do sujeito desejante. Sujeito esse que, ao contrário, é posto em evidência pela Psicanálise, a qual se apresenta na contramão do discurso biomédico reducionista e patologizante.


     A Psicanálise nasce no final do século XIX e início do século XX, diante do fenômeno histérico, o qual era uma incógnita à medicina da época, uma vez que os sintomas histéricos eram considerados fingimentos por não corresponderem a uma lesão neurológica localizável.


     A histeria, portanto, escapava à lógica biomédica. Freud (1985/1996), não obstante, compreende a histeria desde a perspectiva do inconsciente, integrando psique e corpo, ultrapassando, dessa forma, a abordagem biológica e psicopatológica do sofrimento humano
(Santi, 2017).


     A Psicanálise lança luz à subjetividade a partir da escuta singular do sujeito. Ou seja, “a psicanálise seria, na medida do possível, uma prática descolonizadora, em sua tarefa de resgatar o sujeito de sua alienação aos discursos alienantes dos Outros” (Kehl, 2017, p. 18), afastando-se, dessa forma, à lógica prescritiva, em que o profissional, detentor do saber, determina (prescreve) a priori uma orientação ou um tratamento protocolar que considera ser melhor para aquela patologia.


     Para Santi (2017), a atualidade de Freud consiste no fato de que “ele é um autor seminal e estratégico na criação de um tratamento que acolhe o sofrimento e produz uma subjetividade implicada na linguagem, na história e no desejo” (p. 135). Dessa forma, embora a Psicanálise seja uma invenção do século passado, ela, ao mesmo tempo, segue sendo contemporânea, pois preza pelo acolhimento, escuta e análise do sofrimento e do mal-estar a fim de atribuir-lhes, junto ao sujeito, um sentido. Para isso, privilegia a linguagem, tratando da complexidade das paixões e das experiências humanas de forma singular, tendo o sujeito desejante como protagonista de sua própria história.


Davisson Gonçalves Giaretta
CRP 07/21253
Psicólogo. Mestre em Psicologia (PUCRS).
Participante do grupo de estudos “Psicopatologias no cenário atual” do Espaço Criar


Referências
Ehrenberg, A. (2009). O sujeito cerebral. Psicologia Clínica, 21(1), 187-213.
Freud, S. (1996). Estudos sobre a histeria. In J. Strachey (ed. e trad.). Edição Standard
brasileira das obras psicológicas completas de Sgmund Freud (Vol. 2) (39-56). Rio de
Janeiro: Imago. (Obra originalmente publicada em 1895).
Kehl, M. R. (2009). O tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.
Kehl, M. R. (2017). Três motivos (pelo menos) para se ler Freud, hoje. In D. Kupermann
(org.) Por que Freud hoje? (17-24). São Paulo: Zagodoni.
Santi, P. (2017). Linguagem, história e desejo – sobre a atualidade de Freud. In D.
Kupermann (org.) Por que Freud hoje? (123-136). São Paulo: Zagodoni.

Luto: impossibilidades da despedida em tempos de Pandemia

1/7/2020

         O luto sempre esteve presente na história da existência humana, tanto na vida quanto na morte ele nos mostra suas complexidades e seus impactos diante dos indivíduos. O luto não se limita apenas à morte, mas o enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas, de ordem física ou psíquica, tais como aspectos pessoais, profissionais, sociais e familiares. Ao explicar o conceito em Luto e Melancolia, Freud (1915) refere o luto como um processo lento e doloroso, que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor.

          Em tempos de pandemia as famílias precisam renunciar ao direito dos ritos de despedida recomendado pelo Ministério da Saúde, velórios e funerais não são permitidos devido ao risco de transmissão do vírus por aglomeração de pessoas. A impossibilidade da despedida pode deixar marcas e acarretar grandes impactos emocionais na vida de quem ficou. O ritual é a primeira etapa para um processo de compreensão e mesmo de comprovação de que a vida chegou ao fim, pular essa etapa e enterrar sem um rito, rompe com a realidade necessária para a elaboração do luto, do desapego gradual ou aceitação diante da morte.

          O processo de luto possui 5 fases: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e aceitação. A forma como cada pessoa elabora a perda e o sofrimento é singular, podendo os indivíduos não seguirem necessariamente todas as fases ou alternando entre as mesmas. As mortes atuais trazem características específicas que podem complicar a recuperação emocional após a perda, tornando mais solitário devido ao isolamento e a os enterros sem rituais. O Covid-19 tirou um aspecto tão importante de nossa humanidade, não somente o luto e o sofrimento solitário, mas essencialmente sobre passar pelo momento onde as pessoas se consolam e choram juntos.

          Diante da situação atual e da falta dos rituais religiosos, o momento é de readaptação para familiares e amigos terem a oportunidade de se despedirem. Transformar esse processo de sepultar, velar e fazer todo o ritual se tornou necessário diante do sofrimento e situação atual em que vivemos. É possível por exemplo, fazer encontros pela internet reunindo todos os familiares com alguma foto ou algo que tenha um significado da pessoa que partiu, ou determinar um dia e horário para fazer um pensamento ou ritual. Readaptar este processo é muito importante, poder enxergar a realidade da situação e fazer o ritual de sepultamento, ajudará psiquicamente os indivíduos a lidarem com a elaboração da perda e a diminuir a sensação de desamparo.

 

Denise Moretto

Psicóloga - CRP 07/ 32568

Referência: FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 245-263.

1 / 23

Please reload

Converge - 51 98193.0110