O estereotipado papel do idoso

14/10/2020

Esse texto tem como pressuposto uma breve reflexão de parte da leitura do livro A velhice, que tem como autora Simone de Beauvoir e do estágio de observação realizado em um abrigo de idosos. Através das explanações da autora é possível refletir aspectos muito mais profundos e compreender melhor como se dá o processo de envelhecimento no sistema socioeconômico em que se vive. A autora faz uma análise crítica do sistema econômico vigente na época em que escrevera a obra relacionando todo esse contexto com a velhice. Inclusive, ainda que a velhice seja uma realidade vivida de maneira subjetiva e tenha grande influência do contexto social, é possível compreender com clareza o que Simone estava trazendo à tona, visto que na atualidade isso aparece de forma mais esclarecedora quando é feita uma reflexão a respeito do sistema econômico em que atualmente se é vivido. Os interesses da classe que demanda maior poder é desfazer a solidariedade entre os trabalhadores e os improdutivos, ou seja, esses últimos denominam os idosos, que estão numa fase que já não constituem qualquer força econômica e não são portanto, lucrativos. Assim sendo, esse modelo que visa em primeiro lugar o poder econômico, contribui para dificultar que essas pessoas tenham meios de fazer valer seus direitos. A partir disso, já é possível destacar um impasse presente nesse processo de envelhecimento.

Ainda, a autora afirma que os mitos ditados pelo pensamento burguês mostram o velho como algo à parte da sociedade, ou seja, como um outro. Inclusive, baseando-se na observação de Proust, cita: ''É com adolescentes que duram um número bastante grande de anos que a vida faz velhos'' e que ''conservam as qualidades e os defeitos do homem que continuam a ser''. No entanto, como interpretado pela autora, é isso que está sendo ignorado, pois se os velhos manifestam as mesmas vontades, os mesmos sentimentos ou qualquer outra coisa reivindicada pelos jovens, há uma escandalização. É socialmente exigida uma determinada imagem do velho, seja dando o exemplo de todas as virtudes, seja exigindo-lhes uma certa serenidade e, ainda, o extremo oposto disso também é uma imagem distorcida e preconceituosa tida como a imagem do velho que caduca e delira. Conforme cita Beavouir: "De qualquer maneira, por sua virtude ou por sua abjeção, os velhos situam-se fora da humanidade. Pode-se portanto, sem escrúpulo, recusar-lhe o mínimo julgado necessário para levar uma vida de homem.'' Segundo Santos (1990), no modo de produção capitalista, onde há grande valorização da produção e se aliena o trabalhador do processo de produção, a aposentadoria é comumente vivenciada como a perda do próprio sentido da vida. Ao se valorizar apenas aqueles que produzem, deprecia-se o sujeito aposentado, ou seja, o idoso.

Uma outra questão que também chama a atenção diante dessa temática, é a da imagem do velho nas diferentes sociedades, ou seja, a forma como essa fase do desenvolvimento humano é visualizada nas diversas culturas do mundo. É sabido que na sociedade ocidental o valor que se é dado para a beleza estética é preponderante e assim, faz-se da juventude uma hegemonia. Ao passo que em determinadas culturas, como por exemplo, na cultura chinesa, o envelhecimento é relacionado à maturidade e à sabedoria e os idosos são muito valorizados. Logo, o modo como será encarado o envelhecer e o impacto que esse processo transitório provoca varia de acordo com o contexto cultural em que cada indivíduo está inserido. Diante de uma sociedade que reproduz estereótipos acerca da velhice e elabora verdades a partir de sua construção histórica, social e cultural, Picirilli (p. 230) relembra o conceito de efeito de verdade, elaborado por Focault, que pode esclarecer essa formulação de ideias: Os efeitos de verdade se constituem como a naturalização de uma forma de pensamento que é tomado como verdadeiro, sem que ele reflita sobre a maneira como este pensamento é construído. Com o intuito de encerrar a explanação mas não as reflexões fica a seguinte consideração: ''a velhice é amortalhada num silêncio planejado pois essa denuncia o fracasso de toda a civilização'' (BEAUVOIR, 1990, P. 664).

Nickeli Chaves

O abrupto encontro com o luto

30/9/2020

   Sabe-se que juntamente com as inúmeras questões que a pandemia trouxe consigo, um determinado ponto chama-nos a atenção: os sentimentos que esse evento histórico causou, está causando e provavelmente virá ainda a causar. Os sentimentos relacionados à perda fazem-se presente nas diversas esferas da vida cotidiana, seja relacionado ao desemprego, perda do contato com amigos, colegas e familiares, seja de forma mais intensa como a perda de um ente querido. Toda essa gama de ocorridos geram diversas questões a serem discutidas de forma mais específica, no entanto, o objetivo aqui é deter-nos de uma forma geral aos sentimentos que emergem diante dessa atual situação da pandemia.

   Cada indivíduo está lidando de acordo com os seus aspectos subjetivos, seus mecanismos de defesa, seu contexto e da forma como pode ou consegue. Enquanto uns não percebem de forma tão intensa o impacto gerado pela pandemia, outros estão vivenciando um sofrimento significativo. O que de fato podemos inferir é que de alguma forma todos tiveram um encontro abrupto com o que está acontecendo e a questão do luto está presente nos mais diversos ramos da vida de cada um, não excluindo faixas etárias. As crianças perderam o contato pessoal com seus professores e colegas, alguns adultos perderam seus empregos, contato com seus amigos e familiares, enfrentam dificuldades para seguirem suas atividades rotineiras e, por último, os idosos, faixa etária essa que traz uma importante preocupação. Pois além de serem pertencentes ao grupo de risco, também são sujeitos que estão vivenciando o processo de finitude e fazendo reflexões sobre como tudo está acontecendo.

    A maneira de lidar com o luto será de acordo com a religião, com o país e também, com questões sociais. Todavia, pode-se observar que todos, sem exceções, estão enfrentando o mesmo impasse, visto que de alguma forma foram afetados pela pandemia de covid-19. Quando ocorre o início do processo de luto, de acordo com a posição e com os papéis que o indivíduo exercia na sua rotina, irá haver o momento em que o indivíduo irá se defrontar com diversas situações.

    Assim sendo, sabe-se que o luto é um processo necessário e vivenciá-lo é uma condição saudável do próprio funcionamento da psique humana. É possível viver a tristeza, sentir a saudade dos amigos, familiares, da rotina e de tudo como era antes. Deve-se discutir isso com alguém próximo ou procurar por um especialista para conversar sobre o que está sendo vivido e como está sendo esse momento.

 

Nickeli Chaves

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