Rabiscos sobre o documentário Elena

11/11/2020

Lançado em 2012 e dirigido por Petra Costa, o documentário Elena mostra-se tocante e poético do início ao fim. Retratando fatos reais, o documentário narra a história da atriz Elena, irmã de Petra, a qual era 13 anos mais velha que esta. Digo “era”, já que quando Petra tinha 7 anos Elena comete suicídio no apartamento em que morava com mãe e irmã nos EUA. Petra vai a Nova York na esperança de encontrar a irmã e resgatar a sua história, na tentativa de ressignificar a perda. A partir da perspectiva de Petra e dos inúmeros vídeos e áudios gravados por Elena, assim como as cartas desta e os depoimentos de vários familiares e amigos, Petra narra uma história de muito sofrimento, além de mostrar em seu discuso o quanto que as três (mãe, Elena e Petra) estão fusionadas.
O longa começa com o sonho que Petra teve com Elena. No sonho, há uma clara evidência de confusão de quem é quem: Petra percebe que na verdade é ela que está enroscada em fios e não a irmã, tentando depois mexê-los para levar um choque. E então cai do muro alto e morre. Ou seja, ela tenta sentir os seus limites ao provocar o choque e assim cair e morrer, como a irmã. Outra hipótese é que os fios seriam Elena conectada ao corpo de Petra e que esta estivesse em curto circuito, precisando levar um choque para sentir o corpo. Uma terceira possibilidade seria que ela tenta se desvencilhar dos fios que a prendem à irmã, mas que ao mesmo tempo a impedem de cair, e quando consegue acaba caindo e se machucando a ponto de morrer.
Essa morte não seria só no sentido literal, mas também no simbólico: quando Petra se separa de Elena acontece a morte psíquica. As irmãs são tão ligadas que as suas personalidades se confudem e prendem essas mulheres uma à outra. Nesse sentido, Petra faz aquilo que a mãe disse para nunca fazer: se matriculou no curso de teatro na Columbia University (Nova York), ou seja, exatamente o que Elena fez. Levou consigo os vídeos em fita cassete, cartas, listas de contato, fotografias, em busca da irmã. As pessoas queriam que esquecesse Elena, mas esta nunca foi esquecida: ela vive dentro de Petra através das memórias, da escolha da profissão e semelhança física. “Me vejo tanto nas suas palavras que começo a me perder em você”, disse Petra.
No vestibular, Petra escolhe teatro na última hora. Não consegue dormir por dias. Sente como se o cérebro fosse explodir. Ela fica perturbada com a sua escolha, já que era a mesma profissão da irmã. É como se não pudesse trilhar uma outra história que não seja a da irmã.
Conforme o tempo passa, Petra se sente mais perto de Elena. No seu aniversário de 21 anos a mãe diz que Petra está mais velha do que Elena. O medo de seguir os passos a irmã foi desaparecendo, mas percebeu que Elena estava dentro dela. Com as tentativas de resgate do passado, Petra foi vendo Elena renascer para depois morrer de novo. Nessa idade, Petra tinha muito mais consciência para entender isso. Petra tem a sensação de estar se afogando em Elena. As dores viram água, viram memória. Memórias se vão com o tempo, mas algumas ficam. Da sombra da memória de Elena tudo nasce e dança.
Dessa forma, Petra consegue ressignificar a morte de Elena, revivendo através dessa produção cinematográfica, sensível e poética, a vida de Elena e a sua própria vida. Petra busca no passado respostas sobre o que aconteceu quando tinha 7 anos e que nunca foi compreendido até então. Buscou imagens, vídeos, áudios, cartas e discursos para contornar a dor. Com a ajuda da mãe, de familiares e de conhecidos escreveu e dirigiu Elena, o documentário em forma de elaboração do luto. A produção termina com uma cena que mostra mulheres sendo levadas pela água. A água como o acúmulo de lágrimas e como dor em forma líquida. A transformação da solidez da dor em liquidez mostra uma flexibilização para percorrer outros caminhos e seguir em frente.

 

Por: Sofia Koch Hack - estudante da Unisinos e estagiária do Espaço Criar

O abrupto encontro com o luto

30/9/2020

   Sabe-se que juntamente com as inúmeras questões que a pandemia trouxe consigo, um determinado ponto chama-nos a atenção: os sentimentos que esse evento histórico causou, está causando e provavelmente virá ainda a causar. Os sentimentos relacionados à perda fazem-se presente nas diversas esferas da vida cotidiana, seja relacionado ao desemprego, perda do contato com amigos, colegas e familiares, seja de forma mais intensa como a perda de um ente querido. Toda essa gama de ocorridos geram diversas questões a serem discutidas de forma mais específica, no entanto, o objetivo aqui é deter-nos de uma forma geral aos sentimentos que emergem diante dessa atual situação da pandemia.

   Cada indivíduo está lidando de acordo com os seus aspectos subjetivos, seus mecanismos de defesa, seu contexto e da forma como pode ou consegue. Enquanto uns não percebem de forma tão intensa o impacto gerado pela pandemia, outros estão vivenciando um sofrimento significativo. O que de fato podemos inferir é que de alguma forma todos tiveram um encontro abrupto com o que está acontecendo e a questão do luto está presente nos mais diversos ramos da vida de cada um, não excluindo faixas etárias. As crianças perderam o contato pessoal com seus professores e colegas, alguns adultos perderam seus empregos, contato com seus amigos e familiares, enfrentam dificuldades para seguirem suas atividades rotineiras e, por último, os idosos, faixa etária essa que traz uma importante preocupação. Pois além de serem pertencentes ao grupo de risco, também são sujeitos que estão vivenciando o processo de finitude e fazendo reflexões sobre como tudo está acontecendo.

    A maneira de lidar com o luto será de acordo com a religião, com o país e também, com questões sociais. Todavia, pode-se observar que todos, sem exceções, estão enfrentando o mesmo impasse, visto que de alguma forma foram afetados pela pandemia de covid-19. Quando ocorre o início do processo de luto, de acordo com a posição e com os papéis que o indivíduo exercia na sua rotina, irá haver o momento em que o indivíduo irá se defrontar com diversas situações.

    Assim sendo, sabe-se que o luto é um processo necessário e vivenciá-lo é uma condição saudável do próprio funcionamento da psique humana. É possível viver a tristeza, sentir a saudade dos amigos, familiares, da rotina e de tudo como era antes. Deve-se discutir isso com alguém próximo ou procurar por um especialista para conversar sobre o que está sendo vivido e como está sendo esse momento.

 

Nickeli Chaves

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